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OVNIs nas Pirâmides do Egito: Registros e Casos Reais

Entre faraós e discos voadores: a longa história dos avistamentos de OVNIs sobre as pirâmides do Egito

De um papiro de 3.400 anos a um vídeo viral de 2017, o que os registros mostram, o que eles não mostram e por que essas histórias continuam nos fascinando

Desde um antigo registro do faraó Tutmés III até vídeos virais de 2017 e 2020, veja os principais casos de suposto OVNI sobre as pirâmides de Gizé, as fontes reais por trás de cada história e o que a ciência diz.

Frame de um vídeo viral de 2017 que mostra supostos objetos triangulares sobre o planalto de Gizé. Imagem divulgada pelo jornal britânico Express. A análise de especialistas e checadores de fatos aponta para uma montagem digital.

Tem uma cena que se repete na cabeça de quem já passou algum tempo pesquisando sobre as pirâmides. Você está em algum lugar do planalto de Gizé, o sol bate forte na pedra calcária, há turistas tirando fotos com camelos, e de repente alguém aponta para o céu. Ninguém sabe exatamente o que está vendo. Talvez seja um pássaro. Talvez seja um avião. Mas a conversa muda de tom, e por alguns segundos todo mundo olha para cima com uma mistura de curiosidade e algo parecido com medo.

Eu passei semanas lendo sobre esses relatos, desde inscrições antigas até vídeos postados no YouTube na madrugada. E o que mais me surpreendeu não foi a quantidade de histórias. Foi o padrão. Quase todos os casos ligados às pirâmides de Gizé seguem o mesmo roteiro: uma imagem ou um registro impressionante, uma interpretação que vai além do que foi documentado, uma comunidade online que transforma aquilo em verdade absoluta e, algum tempo depois, uma explicação mais simples que quase ninguém quer ouvir.

Este texto é sobre esse padrão. Mas também é sobre as pessoas por trás dele, sobre o que nos leva a olhar para o céu em lugares onde os humanos construíram coisas tão grandes há tanto tempo, e sobre o que a gente pode, de fato, afirmar com segurança.

O papiro, o disco de fogo e o problema da primeira menção
Quase todo texto sobre OVNIs no Egito começa com a mesma história, e ela merece atenção. Ela aparece nas inscrições do faraó Tutmés III, da 18ª dinastia, que governou o Egito por volta de 1479 a 1425 a.C., segundo as datas usadas por historiadores. Os registros são chamados de Anais de Tutmés III e foram gravados nas paredes do templo de Amon, em Karnak, perto de Luxor, a centenas de quilômetros de Gizé.

Os anais são um documento real e impressionante. São relatos de campanhas militares, listas de cidades conquistadas e descrições de tributos recebidos. A passagem que virou lenda está no “ano 22”, em uma seção que descreve fenômenos ocorridos no céu. Em traduções que circulam há décadas, o texto fala de um “círculo de fogo” que vinha do céu, sem cabeça, com um hálito que fedia e um corpo de cerca de uma vara de comprimento e uma de largura. Segundo essas traduções, os escribas ficaram aterrorizados e se deitaram de bruços. Depois de alguns dias, os objetos se multiplicaram, brilhavam como o sol e se estendiam até os quatro “pilares do céu”. Peixes e pássaros teriam caído do céu. E o faraó mandou queimar incenso e registrar tudo nos anais.

Quando li essa passagem pela primeira vez, confesso que fiquei arrepiado. Ela parece escrita por alguém que viu algo que não entendia. Mas aqui vale a pausa que o assunto exige.

Primeiro: o texto não menciona as pirâmides. Ele fala de Karnak, não de Gizé. Segundo: a leitura de “disco voador” é uma interpretação moderna, colocada sobre um texto que tem convenções próprias. No antigo Egito, fenômenos celestes e eventos extraordinários eram frequentemente registrados como sinais, presságios ou manifestações divinas, e o faraó era o intermediário entre o céu e a terra. Os historiadores que estudam esses textos costumam ler a passagem dentro dessa lógica de presságio e legitimação real, e não como um relato técnico de nave.

Isso não significa que os escribas tenham inventado tudo. Pode ser que tenham registrado algo real que viram, algum fenômeno atmosférico, um evento que os assustou, uma chuva de animais que hoje explicaríamos de outra forma. Mas o salto de “algo estranho no céu, há 3.400 anos” para “naves extraterrestres sobrevoando o Egito” é um salto que os próprios documentos não autorizam.

Esse é o primeiro caso da nossa história, e ele já ensina uma lição: a frase mais famosa sobre OVNIs no Egito é, na verdade, uma tradução que foi fortemente interpretada. Quem repete a história geralmente não cita a inscrição original, nem o contexto, nem o fato de que ela não fala de pirâmides.

Edgar Cayce, a Hall of Records e a semente do mito

Se o papiro de Tutmés III é o começo da história dos “OVNIs antigos”, o próximo personagem importante já não é um faraó, e sim um americano que dizia receber mensagens durante transes. Edgar Cayce, que ficou conhecido como o “profeta adormecido”, fez leituras nas décadas de 1930 e 1940 que afirmavam que um grupo de refugiados de Atlântida teria construído a Grande Pirâmide e a Esfinge, e que existiria uma sala subterrânea com registros de conhecimento antigo, a chamada Hall of Records, nas proximidades da Esfinge.

Cayce não tinha formação em arqueologia e nunca apresentou evidência física dessa câmara. Mesmo assim, a ideia se espalhou e ganhou vida própria. Até hoje, buscas pela “Sala dos Registros” aparecem em livros, documentários e vídeos. O ponto que interessa para esta reportagem é o encadeamento: a ideia de que um conhecimento superior teria erguido as pirâmides, transmitido por seres de outros mundos ou de civilizações perdidas, nasce antes da popularização de discos voadores. Quando os OVNIs entram no imaginário, a história já estava pronta para recebê-los.

Erich von Däniken e a fórmula dos “antigos astronautas”

Em 1968, o suíço Erich von Däniken publicou Eram os deuses astronautas? (no original, Chariots of the Gods?). O livro fez um enorme sucesso e apresentou uma tese que se tornaria a espinha dorsal de muitos dos casos que vieram depois: monumentos antigos, como as pirâmides, seriam obras de visitantes do espaço ou, no mínimo, teriam sido construídos com tecnologia que a humanidade da época não teria.

Essa tese tem um problema que não pode ser ignorado. Ela parte de uma premissa implícita de que os povos antigos eram incapazes de fazer aquilo que, de fato, fizeram. Uma crítica que aparece com frequência em debates atuais, e que cito aqui sem fazer caricatura, é a de que a teoria dos antigos astronautas cria uma hierarquia de inteligência e atribui a construções de povos africanos e mesoamericanos uma origem externa que não se aplicaria a monumentos europeus.

Em março de 2025, a reportagem da agência Decrypt sobre as alegações de estruturas subterrâneas sob Gizé trouxe a voz de Ikram, uma egiptóloga citada no texto, que afirmou que a teoria dos antigos astronautas está ancorada em pseudoarqueologia e em estereótipos. A mesma reportagem cita Anthony, outra especialista, que disse que essas teorias “não são ciência” e “não são história”. Eu prefiro não repetir essas frases como verdade absoluta, mas elas representam uma posição que pesa muito quando se fala de OVNIs e pirâmides.

Däniken foi, sem dúvida, o grande motor editorial dessa linha. E a fórmula que ele ajudou a popularizar está em praticamente todos os casos seguintes: uma imagem misteriosa, uma pergunta retórica (“como eles fizeram isso?”), e a resposta sugerida de que a explicação é extraterrestre.

O vídeo de 2017 e o caso que ganhou o mundo

Chegamos agora ao caso que mais circulou nas redes e que, em muitos aspectos, é o melhor exemplo de como esse tipo de história funciona hoje.

Em março de 2017, o jornal britânico Express publicou uma reportagem sobre um vídeo que mostrava três objetos triangulares aparentemente flutuando sobre as pirâmides de Gizé. O vídeo foi postado no YouTube por um canal chamado Section 51 2, e a reportagem dizia que as imagens eram “cristalinas”, algo raro em registros desse tipo, que costumam ser tremidos ou borrados. Na tela, turistas olham para cima enquanto os objetos parecem girar e subir sobre as pirâmides, com planos de baixo, olhando para as pedras.

A imagem que abre este texto é um frame desse vídeo, e é importante dizer o que ela é e o que não é. Ela é real como registro de um vídeo que circulou. Mas o que ela mostra não foi confirmado como fenômeno real. A reportagem do Express afirma que a legenda do vídeo indicava que a gravação teria sido feita em abril de 2016 e que os objetos teriam estado presentes por quatro horas. O próprio jornal, entretanto, registrou que não havia detalhes sobre o suposto avistamento no site do canal, e que o texto que acompanhava o vídeo tratava de um papiro, o chamado papiro de Tulli, sem relação direta com a filmagem.

O que mais chama atenção, lendo a cobertura da época, é o argumento que o próprio Express trouxe, citando críticos e caçadores de farsas. Um deles, Earl Verity, comentou no YouTube algo como “queria que fosse verdade, mas não é; seria a maior notícia da história da humanidade”. Outro comentarista, identificado como Teflon12110, apontou que a resolução dos objetos não batia com a das pirâmides e que as pessoas na cena não reagiam com o espanto que se esperaria. Scott Brando, responsável pelo site de checagem ufoofintererst.org, afirmou que o canal transmitia farsas digitais de forma clara. A reportagem também registrou que o canal havia sido apontado por investigadores como usuário recorrente de efeitos digitais.

Pense comigo: se três objetos triangulares tivessem ficado parados sobre as pirâmides por quatro horas, na frente de turistas, o assunto teria ido parar em todos os telejornais do planeta. Não foi isso que aconteceu. Esse silêncio é, por si só, uma informação.

Eu não afirmo com certeza que o vídeo é uma montagem, porque não tive acesso aos arquivos originais nem a análise técnica completa. Mas a conclusão mais sólida, com o que está disponível publicamente, é que a imagem não tem origem comprovada e que vários especialistas e checadores a consideram um trabalho de computação gráfica. Essa é a leitura que eu considero mais plausível, e é a que o Express também apresentou ao leitor.

O caso de dezembro de 2020: paraquedistas, luzes ou algo mais?

Dois anos depois do vídeo de 2017, outro registro voltou a movimentar a comunidade ufológica. Em 3 de dezembro de 2020, um post no fórum r/UFOs, do Reddit, trouxe a informação de que vários objetos teriam sido vistos sobre as pirâmides de Gizé à noite, e linkou para um vídeo no YouTube.

A discussão que se seguiu é uma aula de como uma imagem pode gerar interpretações opostas. Vários usuários, com experiência em paraquedismo, argumentaram que as imagens eram compatíveis com um grupo de paraquedistas usando sinalizadores (flares) e luzes nas próprias calotas, formando um losango no ar antes de se separar. Um dos comentários mais detalhados descrevia que o grupo poderia estar fazendo uma formação de queda livre e, depois, abrindo os paraquedas, e que as faíscas dos sinalizadores caíam no início do vídeo. Outro usuário chegou a apontar a existência de um vídeo diurno de um grupo com sinalizadores e luzes de LED nas calotas.

Mas nem todos ficaram convencidos. Alguns comentaristas argumentaram que o losango permanecia na mesma altitude por tempo demais, e que paraquedistas em queda não se manteriam parados. Outros sugeriram drones com pirotecnia ou um paramotor. E houve quem simplesmente dissesse que o caso não podia ser descartado, justamente porque não havia material suficiente para uma conclusão.

É aqui que eu quero fazer uma distinção que considero essencial. “Não sabemos o que é” não é o mesmo que “é um OVNI”. A primeira frase é honesta. A segunda é uma conclusão que a evidência não sustenta. O caso de 2020 tem uma explicação terrestre plausível, que é a de um evento com paraquedistas, e uma pergunta em aberto sobre detalhes do vídeo. Essa é uma diferença que muitos conteúdos sobre o assunto simplesmente apagam.

Também não encontrei, para este texto, uma fotografia real do caso de 2020 sem edição que possa ser apresentada com segurança. As imagens que aparecem em buscas por esse tema são, na maioria, ilustrações e bancos de imagens com desenhos de OVNIs sobre pirâmides, o que é uma boa lembrança de como a fronteira entre o real e o imaginado fica borrada nesse assunto.

Os anos 2020 e o velho hábito de ver estruturas onde não há

Antes de chegar aos casos mais recentes, vale uma pausa para entender o que acontece com as pirâmides de Gizé no imaginário moderno. O local é um dos mais visitados do mundo e um dos mais estudados. Mesmo assim, ele continua gerando especulação, porque é grande, antigo, pouco compreendido em detalhes para o público geral e, principalmente, porque é fotografado de todos os ângulos por todo mundo, o tempo todo.

Essa combinação alimenta um ciclo bem conhecido. Uma nova imagem aparece, uma interpretação se forma, e então o assunto volta a circular. A cada volta, o caso ganha um pouco mais de peso emocional e um pouco menos de rigor.

O “complexo” no Google Maps e o mistério das antenas

Em 2025, um caso aparentemente absurdo tomou conta das redes. Usuários do Google Maps notaram uma estrutura no deserto egípcio, a cerca de 40 quilômetros ao sul da Grande Pirâmide, segundo a reportagem do Daily Mail. Alguns internautas começaram a chamar o local de “Stargate”, em referência à série de ficção científica. Havia quem falasse em uma nave, outros em uma armadilha de caça pré-histórica, e outros ainda em uma base secreta de OVNIs do governo egípcio.

Mas a explicação mais mencionada, tanto por usuários quanto por jornalistas, foi bem mais prosaica: a estrutura parecia ser um sítio militar de defesa antiaérea. O Daily Mail registrou que o Egito é cheio de sítios semelhantes, construídos entre as décadas de 1950 e 1970 para proteger bases militares, aeroportos e infraestrutura estratégica de ataques aéreos. Ou seja, o que parecia estranho do alto era, muito provavelmente, uma instalação militar antiga e comum na região.

Esse caso me chamou atenção por um motivo específico. Ele mostra como uma imagem de satélite, vista sem contexto, pode virar uma narrativa completa em poucas horas. A pessoa que notou a estrutura não estava mentindo sobre o que via. O problema estava no que se acrescentava ao que se via.

O Projeto Khafre e as “cidades subterrâneas” de 2025

Se o caso do Google Maps foi uma tempestade em copo d’água, o caso do chamado Projeto Khafre foi um temporal que atravessou o ano de 2025.

Em março de 2025, um grupo apresentou imagens e vídeos que afirmavam mostrar uma rede de estruturas subterrâneas sob a pirâmide de Quéfren, a segunda maior de Gizé. Segundo as descrições divulgadas na época, haveria cinco câmaras e oito poços, alguns com profundidades enormes, de centenas de metros. Os criadores das imagens usaram desenhos, gráficos e animações para sugerir que estavam diante de algo que a arqueologia tradicional teria ignorado.

Os nomes envolvidos ajudam a entender por que o caso ganhou tanta atenção. Um dos líderes do projeto era Corrado Malanga, professor citado como ligado à Universidade de Pisa, e o outro era Filippo Biondi, pesquisador que trabalha com processamento de radar. Malanga já é conhecido por pesquisas sobre abduções alienígenas, e isso foi lembrado por críticos.

A reação de especialistas foi rápida e firme. A própria Decrypt registrou que o Snopes, site de checagem de fatos, declarou as alegações falsas. O Snopes afirmou que “apesar da popularidade da alegação, não há evidência que a sustente”, e que nenhum veículo de imprensa ou publicação científica confiável havia reportado o assunto. O mesmo site apontou que uma das imagens mais compartilhadas, um corte da pirâmide com as supostas estruturas, havia sido gerada por inteligência artificial, e que uma ferramenta de detecção indicou 99,9% de chance de a imagem ter sido criada por IA.

A reportagem também registrou que, segundo a egiptóloga Ikram, as autoridades egípcias confirmaram que não haviam concedido permissão ao Projeto Khafre para trabalhar no sítio. Isso é importante. Estudos de sítios arqueológicos no Egito exigem autorização oficial, e as pesquisas com radar que o grupo citava já foram feitas por outros, como o projeto ScanPyramids, que, em 2016, usou técnicas de imagem não invasivas e revelou vazios dentro da Grande Pirâmide. Essa descoberta foi real e publicada em revista científica, e é justamente o tipo de resultado que se consegue com revisão por pares e acesso autorizado. Não é o mesmo que ver cidades inteiras sob o chão.

O estudo de 2022 de Malanga e Biondi, citado como base para as alegações de 2025, tratava da pirâmide de Quéops, a Grande Pirâmide, e não de estruturas profundas sob ela. Segundo a reportagem da Decrypt, o trabalho não tinha sido revisto por pares de forma confiável no contexto das novas afirmações, e a análise do Snopes apontava que a pesquisa não havia sido corroborada por arqueólogos independentes.

Esse caso é um bom exemplo de como uma pesquisa real pode ser deslocada para uma conclusão que ela não sustenta. E ele também mostra o papel da inteligência artificial nessa cadeia: a imagem que mais circulou era, segundo a checagem, artificial.

Uma reportagem de outubro de 2026

Chego agora aos acontecimentos mais recentes. Hoje é 8 de outubro de 2026, e uma reportagem publicada há poucos dias, no site Natural News, voltou a falar de uma “vasta cidade subterrânea” sob o planalto de Gizé, com base em dados de radar de satélite. Segundo o texto, Biondi apresentou os resultados no podcast Joe Rogan Experience e disse que a equipe inicialmente achou que os dados eram ruído, mas que, ao obter resultados semelhantes com diferentes satélites, decidiu divulgar.

Não consegui confirmar essa afirmação em uma publicação científica revisada por pares nem em fonte primária independente. A própria reportagem diz que os achados seguem “em limbo científico”, sem confirmação por exploração física direta. Então, por enquanto, o que temos é uma alegação de um grupo que já esteve envolvido em controvérsias, sem validação externa suficiente.

Se essa história se parecer com a de 2025, é porque é a mesma história, com outro capítulo. Vale acompanhar, mas com cautela, e sempre perguntando: quem revisou esses dados? Onde estão os arquivos brutos? Algum arqueólogo independente foi autorizado a verificar?

O que a ciência realmente sabe sobre as pirâmides

Chegou a hora de falar do que eu considero o ponto mais importante deste texto. As pirâmides de Gizé não são um mistério no sentido de que ninguém sabe quem as construiu. Sabemos bastante.

A Grande Pirâmide é atribuída ao faraó Quéops, ou Khufu, da 4ª dinastia, e foi construída há cerca de 4.500 anos. Sabemos que trabalhadores, muitos deles organizados em equipes com nomes e identidades, participaram da obra. Existem registros de salários, acampamentos com restos de comida, ferramentas, e até papiros encontrados em Wadi al-Jarf que mencionam o transporte de blocos de calcário pelo Nilo. Esses papiros, descobertos em 2013, são um dos documentos mais importantes sobre a construção das pirâmides.

Isso não encerra o assunto, claro. Ainda há debates sobre técnicas de transporte e de levantamento de blocos, sobre a organização do trabalho e sobre detalhes de como as rampas foram construídas. Mas a diferença entre um debate técnico sobre como os egípcios fizeram algo e a afirmação de que alguém fez por eles é enorme.

Essa diferença é o que quero destacar. A pergunta “como eles conseguiram?” é ótima. Ela leva à pesquisa, à arqueologia, à engenharia. A pergunta “quem fez por eles?” tem uma resposta que sempre cabe em qualquer coisa, e por isso ela é mais atraente e mais difícil de testar.

Por que a gente quer acreditar

Depois de ler tanto material sobre o assunto, a pergunta que mais me incomodou não foi “esses casos são reais?”. Foi “por que eles nos atraem tanto?”.

Uma parte da resposta é emocional. Olhar para o céu e pensar que não estamos sozinhos é uma ideia poderosa. Ela dá sentido a algo que parece maior do que nós. E as pirâmides, com sua escala e sua idade, têm uma presença que quase exige explicação grandiosa. É difícil imaginar que aquilo foi feito por pessoas comuns com cordas, madeira, cobre e muito trabalho coletivo, e é justamente por isso que essa versão, para muitas pessoas, parece menos fascinante.

Outra parte da resposta é social. Histórias de OVNIs e antigos astronautas circulam com facilidade porque são fáceis de contar, de compartilhar e de transformar em vídeo com música dramática. Uma explicação sobre paraquedistas ou sítios militares antigos não gera o mesmo impacto nos algoritmos.

E há uma parte que tem a ver com a história das ideias e com quem tem o direito de ser considerado capaz de grandes obras. Muitas das teorias sobre “construtores alienígenas” têm, por trás, uma suposição de que os egípcios, ou os povos africanos e indígenas de outras regiões, não teriam capacidade de fazer aquilo sozinhos. Essa suposição é errada, e vale a pena dizer isso com todas as letras. Os egípcios construíram as pirâmides, e isso é uma das maiores conquistas da engenharia humana.

Fontes consultadas

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