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A Jornada Oculta de John Constantine

Além do Sobaque e do Cigarro: A Jornada Oculta de John Constantine, o Mago que Enganou o Diabo e Conquistou Hollywood

John Constantine não é um herói. Ele é um vigarista. Um alcoólatra. Um fumante inveterado que enganou a morte e mandou Lúcifer de volta ao inferno de mãos abanando. Antes de ser interpretado por Keanu Reeves com uma Beretta na mão ou por Matt Ryan com um mapa de vidência na contracapa, Constantine era apenas um personagem coadjuvante em uma revista do Monstro do Pântano, criado por acaso para satisfazer o desejo de dois desenhistas que queriam desenhar o vocalista do The Police 

Mas como esse figurante de Liverpool se tornou o anti-herói mais cultuado do selo Vertigo, e como Hollywood, ao adaptá-lo, construiu uma ponte frágil – porém fascinante – entre o terror psicológico britânico e o blockbuster norte-americano? Esta é a história real por trás das adaptações; a genealogia de uma lenda que, ironicamente, nunca deveria ter existido.

 O Nascimento do Canalha (1985)

O Pedido Inocente de Bissette e Totleben

Tudo começa com Sting. Não o personagem de Duna, mas Gordon Sumner, o baixista loiro da banda The Police. Em meados dos anos 80, os artistas Stephen Bissette e John Totleben trabalhavam na aclamada fase de Alan Moore em Monstro do Pântano. Em determinado momento, os dois disseram a Moore: “Estávamos com vontade de desenhar o Sting”

Alan Moore, conhecido por sua capacidade de transformar qualquer capricho em mitologia, criou então um personagem fisicamente idêntico ao cantor: trench coat amarelo sujo, cabelo despenteado, rosto anguloso e um cinismo cortante. A primeira aparição oficial de John Constantine aconteceu em Swamp Thing vol. 2 #37 (junho de 1985), durante o arco “Gótico Americano”

O impacto foi imediato. Constantine não era um mago pomposo; ele era um sujeito que resolvia problemas sobrenaturais com lábia, mentiras e sacrifícios alheios. Em 1988, ganhou seu próprio título. O nome originalmente cogitado era Hellraiser, mas a editora abandonou a ideia por conta do filme de Clive Barker. Assim nasceu Hellblazer 

O Toque de Midas de Jamie Delano

Se Alan Moore deu à luz Constantine, foi Jamie Delano quem o criou. Escolhido pessoalmente por Moore para escrever a revista solo, Delano estabeleceu tudo o que conhecemos sobre o personagem: o passado em Liverpool, a infância traumática com um pai alcoólatra, a banda de punk rock “Membrana Mucosa” (Mucous Membrane), e o taxista Chas Chandler – batizado em homenagem ao empresário do Jimi Hendrix 

Delano também inseriu Constantine em um contexto político e social. Diferente dos super-heróis americanos que lutavam contra alienígenas, Constantine enfrentava a Dama Thatcher, o desemprego e a podridão urbana de Londres. Era terror psicológico misturado com crítica social. Foi nesse período que o personagem deixou de ser apenas um coadjuvante carismático para se tornar um ícone da contracultura.

 O Coração Sombrio da Origem – Newcastle

O Trauma que Nunca Cura

Nenhuma adaptação de Constantine – seja o filme ou a série – conseguiu capturar plenamente o peso do que aconteceu em Newcastle. Este é o evento zero do personagem, o pecado original que justifica cada cigarro aceso e cada amizade destruída.

Em 1982, a banda Membrana Mucosa chega à boate Casanova em Newcastle. Lá, encontram Astra Logue, uma criança de aproximadamente 11 anos em estado catatônico. Ela havia sido abusada sexualmente pelo próprio pai, e o sofrimento da menina manifestou um avatar demoníaco que massacrou os agressores -2-6.

Constantine, arrogante e cheio de convicção, decide invocar um demônio para combater a criatura. Ele e seus amigos tentam conjurar Sagatana, mas o ritual falha. Quem aparece é Nergal, um demônio muito mais antigo e poderoso. Sem controle sobre a entidade, Constantine assiste impotente enquanto Nergal arrasta a alma de Astra para o Inferno 

O resultado: Astra condenada, os amigos de Constantine amaldiçoados um a um, e o próprio mago internado por dois anos no hospício de Ravenscar, na ala de criminosos insanos. A culpa de Newcastle não é uma motivação secundária; é o motor de tudo. Como bem define um artigo, “Constantine não sentia mais medo, pois já tinha tido a visão do Inferno” 

O Sangue de Nergal e a Maldição dos Constantine

O encontro com Nergal não terminou em Newcastle. O demônio amaldiçoou Constantine e seus companheiros, garantindo que morressem um a um. Para sobreviver, John precisou usar de toda sua astúcia: anos depois, ele enganaria Nergal e o enviaria ao Céu, onde os anjos o estriparam. Porém, durante o confronto, sangue demoníaco entrou na corrente sanguínea de Constantine, concedendo-lhe regeneração acelerada e uma conexão perpétua com o mundo das trevas 

Outro detalhe frequentemente ignorado pelas adaptações é a genealogia da família Constantine. Antes mesmo de John nascer, seus ancestrais já estavam enredados em tragédias místicas. Kon-Stan-Tyn, sucessor de Merlin no trono de Arthur, assassinou os próprios filhos por poder. Johanna Constantine serviu ao Sonho (de Sandman) durante a Revolução Francesa. O próprio John, ainda no útero, matou o irmão gêmeo com o cordão umbilical, o que também causou a morte da mãe

Constantine não é apenas um homem que sofre; ele é herdeiro de uma maldição ancestral.

 A Jornada até Hollywood – O Filme que Dividiu os Fãs (2005)

Por que “Hellblazer” Virou “Constantine”?

Quando a Warner Bros. decidiu levar o personagem aos cinemas, um dos primeiros obstáculos foi o título. Hellblazer soava próximo demais de Hellraiser, a franquia de terror da Dimension Films. Para evitar confusão jurídica e mercadológica, o estúdio optou pelo título Constantine 

Os problemas, no entanto, estavam apenas começando.

Keanu Reeves: O Escolhido e a Controvérsia

A escalação de Keanu Reeves para viver John Constantine foi recebida com ceticismo feroz pelos leitores dos quadrinhos. O personagem original era loiro, inglês e esguio; Reeves era moreno, americano e fisicamente robusto. Além disso, o sotaque cockney deu lugar ao tom grave e soturno que o ator consagrou em Matrix 

O diretor Francis Lawrence nunca escondeu que sua referência não era Jamie Delano ou Garth Ennis, mas sim o cinema noir e o terror existencial. Seu Constantine não era um vigarista que enganava demônios; era um exorcista cansado que buscava redenção. A Beretta benzida substituiu os truques sujos. O cenário deixou de ser Londres para ser Los Angeles. Papa Midnite, que nos quadrinhos era um senhor idoso e aterrorizante, foi reinterpretado por Djimon Hounsou como um líder espiritual equilibrado 

Hábitos Perigosos: A Espinha Dorsal do Filme

Apesar das mudanças radicais, o filme acertou ao adaptar o arco Hábitos Perigosos (Dangerous Habits), escrito por Garth Ennis em 1991 

Na trama original, Constantine descobre que, após décadas fumando quatro maços por dia, desenvolveu câncer de pulmão em estágio terminal. Sabendo que sua alma está destinada ao Inferno, ele arquiteta um plano para enganar Lúcifer e os demônios Mammon e Gabriel, manipulando a própria morte para se tornar “inútil” para o inferno e, assim, ser curado. No filme, essa estrutura é mantida, embora adicionem uma trama envolvendo a Lança do Destino e irmãs gêmeas.

O grande trunfo foi Peter Stormare como Lúcifer. Sua aparição de apenas alguns minutos – de pés sujos e terno branco – é considerada por muitos críticos a melhor representação do Diabo no cinema. Stormare entendeu que Lúcifer não precisa de chifres; precisa de tédio e desprezo -7.

Recepção e Legado

Constantine estreou em 2005 com críticas mornas (46% no Rotten Tomatoes) e um desempenho de bilheteria respeitável (US$ 230 milhões contra um orçamento de US$ 100 milhões) . Os fãs de longa data odiaram; o público geral abraçou. Com o tempo, o filme conquistou status cult, e Keanu Reeves se tornou, para uma geração, *o* Constantine – ainda que nada tenha a ver com os quadrinhos.

 A Redenção Televisiva – Matt Ryan e o Universo Arrow (2014-2015)

O Compromisso com a Fidelidade

Quase dez anos após o filme, a NBC anunciou uma série de TV intitulada Constantine. Desta vez, a promessa era clara: fidelidade aos quadrinhos. O protagonista seria inglês, loiro, sarcástico e fumante .

Matt Ryan, ator galês até então desconhecido do grande público, foi escalado. E, ao contrário de Reeves, Ryan estudou o material original. Ele leu Delano, Ennis e Carey. Ele assistiu entrevistas com Alan Moore. Sua interpretação capturou a essência de Constantine: o charme autodestrutivo, a irritação com anjos, a incapacidade de manter relacionamentos saudáveis .

O Problema do Cigarro e a Escuridão Ascendente

A série enfrentou um obstáculo intransponível: a NBC não permitia que personagens fumassem em cena. Constantine, o fumante mais famoso dos quadrinhos, aparecia na TV sempre com um palito de bala ou um isqueiro vazio na mão. O diretor Neil Marshall lamentou publicamente: “É algo que tivemos que abrir mão. Estamos tentando trabalhar com essa limitação” .

A trama da primeira (e única) temporada girou em torno da “Escuridão Ascendente”, uma ameaça sobrenatural iminente que forçava Constantine a cruzar os Estados Unidos com um mapa de vidência. Apesar do orçamento limitado e da audiência modesta, a série acertou em cheio no tom. Gary Lester, Gaz, Papa Midnite, o Monstro do Pântana (em uma participação especial nos planos) e o Anjo Manny trouxeram elementos canônicos que os fãs sempre desejaram ver .

O Cancelamento e a Segunda Vida no Arrowverse

Em 8 de maio de 2015, a NBC cancelou Constantine após 13 episódios. A justificativa foi a baixa audiência linear, incompatível com os custos de produção. Mas os fãs não desistiram.

Matt Ryan fez campanha incansável nas redes sociais. Em 2015, ele apareceu como Constantine em Arrow (episódio 4×05, “Haunted”). A recepção foi tão positiva que o personagem foi promovido a regular em Legends of Tomorrow, onde permaneceu por várias temporadas. Embora a série solo tivesse acabado, o Constantine de Matt Ryan estava vivo e integrado ao maior universo compartilhado da DC na TV .

 A “História Real” vs. a Adaptação – Por Que as Diferenças Importam?

O Mago e o Herói de Ação

A maior distinção entre as adaptações e os quadrinhos reside na natureza do conflito.

Nas HQs, Constantine não luta. Ele não dá socos, não dispara balas abençoadas, não realiza exorcismos pirotécnicos. Seu poder é a informação. Ele vence porque sabe o nome verdadeiro do demônio, conhece o segredo sujo do arcanjo, ou descobriu a cláusula de escape no contrato infernal. No filme, Keanu Reeves atira; na série, Matt Ryan conjura feitiços visuais. Nenhum dos dois captura plenamente a essência do “vigarista do oculto”.

A Ausência de Newcastle

Nenhuma adaptação live-action dramatizou Newcastle. O filme de 2005 faz referências vagas a uma “menina que John não conseguiu salvar”, mas omite o nome Astra, o demônio Nergal e o hospício Ravenscar. A série de TV também tangencia o evento, mas não teve tempo de desenvolvê-lo. Sem Newcastle, Constantine é apenas um exorcista sarcástico; com Newcastle, ele é um homem que carrega o inferno dentro de si.

 O Legado de Um Erro Feliz

John Constantine nasceu de um capricho. Dois artistas queriam desenhar um roqueiro, e Alan Moore criou um ícone. Ao longo de quase quarenta anos, o personagem sobreviveu ao cancelamento de sua própria revista, a reformulações editoriais e a adaptações que o reinterpretaram radicalmente.

O filme de 2005 falhou em ser Hellblazer, mas triunfou como Constantine – uma obra derivada que encontrou seu próprio público. A série de 2014 falhou comercialmente, mas acertou na alma do personagem e garantiu que Matt Ryan se tornasse o rosto definitivo do mago para a geração streaming.

A “história real” de Constantine não está nas telas. Está nas páginas amareladas de Swamp Thing #37, nas garrafas vazias de Jamie Delano, na fúria visceral de Garth Ennis e na maldição silenciosa de Newcastle. Hollywood pegou emprestado seu trench coat, seus cigarros (quando pôde) e seu nome. Mas a dívida impagável – a inspiração, o cinismo e a humanidade fraturada – permanece nos quadrinhos.

Como o próprio Constantine diria: “Não existe final feliz. Existe apenas o próximo truque.” E enquanto houver um truque para ser feito, John Constantine continuará existindo – seja no papel, no cinema ou na televisão. Sempre fugindo do inferno. Sempre pagando por Newcastle. Sempre pronto para enganar o diabo mais uma vez.

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