O ARCO PERFEITO de Lionel Luthor – Do Tirano ao Mártir em Smallville
Em um mundo de super-heróis e alienígenas, poucos arcos de personagem são tão complexos e fascinantes quanto o de Lionel Luthor em Smallville. Criado pelos produtores Alfred Gough e Miles Millar como um “experimento em paternidade extrema” e antítese aos valores dos Kent , Lionel começou sua jornada como o CEO implacável da LuthorCorp, um tirano que via o próprio filho, Lex, como um “fracote” e “medroso” que precisava ser testado a todo momento .
Nas primeiras temporadas, Lionel personificava a ganância urbana e a frieza corporativa, contrastando radicalmente com o calor e a moralidade da família Kent . Suas ações eram brutalmente calculistas: conspirou para assassinar os próprios pais para usar o seguro e financiar a LuthorCorp, submeteu Lex a eletrochoques para apagar sua memória, e tentou trocar de corpo com o filho quando descobriu que tinha uma doença hepática terminal . O personagem parecia destinado a ser apenas mais um vilão unidimensional, mas John Glover, o ator que lhe deu vida, transformou-o em algo muito mais profundo.
A virada no arco de Lionel ocorreu na quarta temporada, quando, após a troca de corpos com Clark Kent, sua doença hepática foi curada e ele despertou com um novo senso de propósito . A partir daí, Lionel tornou-se um aliado do “Viajante”, passando a proteger Clark e seus segredos — ainda que usando métodos questionáveis . A inteligência artificial de Jor-El passou a guiá-lo, e Lionel usou sua influência para justificar os desaparecimentos inexplicáveis de Clark .
Contudo, a redenção nunca foi completamente confortável. Como um fã observou, Lionel “nunca teve aquele desenvolvimento adequado” de vilão a herói; a transformação pareceu repentina, quase uma epifania forçada . O próprio produtor executivo Greg Beeman admitiu que a tentativa de tornar Lionel “bonzinho” falhou, fazendo com que o personagem voltasse a agir de forma enganosa — mas agora para proteger Clark . A ambiguidade moral permaneceu: mesmo ajudando Clark, Lionel ainda era capaz de atos moralmente duvidosos, como chantagear Lana para que se casasse com Lex na sexta temporada, um movimento que os roteiristas descreveram como um “tapa na cara” para lembrar ao público quem Lionel realmente era .
O desfecho trágico veio na sétima temporada, quando Lex descobriu que seu pai fazia parte da sociedade secreta Veritas, criada para proteger Clark. Num momento de fúria e realização, Lex assassinou o próprio pai, jogando-o de uma janela . Lionel morreu sozinho, sem que Clark ou Chloe acreditassem em seus avisos nos momentos finais — uma morte que muitos fãs consideram ainda mais trágica que a de Jonathan Kent, pois Lionel “não conseguiu reconquistar a confiança de seus amigos até depois de sua morte” .
O que torna o arco de Lionel verdadeiramente “perfeito” não é sua pureza moral, mas sua complexidade humana. Ele cometeu atos imperdoáveis, e muitos fãs ainda argumentam que sua redenção foi “difícil de engolir” . No entanto, foi precisamente essa imperfeição que o tornou fascinante. Como o próprio Glover disse, o personagem aprendeu que “as pessoas têm responsabilidade umas com as outras” . Lionel Luthor provou que mesmo os mais sombrios tiranos podem encontrar um caminho para a luz — ainda que este caminho termine em martírio, com o corpo possuído por Darkseid e destruído por Clark na temporada final .
O arco de Lionel Luthor continua sendo um dos mais celebrados de Smallville, uma obra-prima de construção de personagem que desafia a noção simplista de herói e vilão. John Glover, com sua atuação magistral, transformou o que poderia ser um clichê em uma das figuras mais complexas da televisão — um tirano que, no fim, deu a vida para proteger o herói que um dia jurou destruir.