A Noite em que a Amazônia Parou: Os 50 Anos do Terror dos "Chupa-Chupas" nos Arquivos Secretos da FAB
1. O Silêncio que Precede o Pânico
Eram cerca de 22h do dia 25 de abril de 1977. Na remota Ilha dos Caranguejos, no litoral do Maranhão, quatro homens aguardavam a maré subir para voltar para casa. José, Auleriano, Firmino e Apolinário eram trabalhadores braçais, acostumados com a dureza da mata e a solidão do rio. Mas nada os preparou para o que aconteceu naquela madrugada.
Horas depois, já sob o sol da manhã seguinte, o cenário encontrado por Apolinário — o único que acordou lúcido — era desolador. José estava morto em sua rede, vítima de um choque emocional tão violento que provocou um acidente vascular cerebral, segundo laudos do IML. Auleriano e Firmino estavam caídos, com queimaduras de segundo grau espalhadas pelo corpo, alheios a tudo, como se tivessem tido suas energias vitais sugadas. “Foi um fogo”, teria dito um deles antes de desmaiar novamente .
Este foi o primeiro capítulo de um fenômeno que aterrorizaria a região norte nos meses seguintes, batizado pelos caboclos de “Chupa-Chupa”, e que completa 50 anos em 2027 sem uma explicação conclusiva. O episódio inicial, ocorrido há exatamente meio século, quase não saiu dos boletins de ocorrência da polícia maranhense, não fosse a força de uma testemunha silenciosa: o medo.
De posse de relatórios do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) e de documentos da Aeronáutica liberados ao Arquivo Nacional, é possível agora reconstruir, passo a passo, como a União Soviética, os Estados Unidos e até “monstros azuis” passaram a fazer parte do imaginário (e das apostas) dos agentes do Estado brasileiro.
2. O “Monstro Azul” e a Queda de Cabelo
Após o incidente na Ilha dos Caranguejos, as luzes estranhas se espalharam como um rastilho de pólvora. Em Viseu (PA), a imprensa local já falava de uma “lanterna com luz forte” que rondava as vilas de Curupati e Urumajó. Mas foi em Colares, um distrito de pescadores de águas escuras e mangues densos, que o inferno se instalou.
A reportagem teve acesso a transcrições de depoimentos dados à equipe do capitão Uyrangê Hollanda, chefe da “Operação Prato”, que continham detalhes até agora pouco divulgados fora dos círculos ufológicos. Enquanto a versão conhecida fala de marcas de perfuração no peito das vítimas, os registros internos da FAB descrevem um fenômeno muito mais perturbador: a queda de cabelo em massa.
Moradores relataram que, após o clarão de uma luz vinda do céu, sentiam uma letargia profunda. Nos dias seguintes, mechas de cabelo caíam ao serem tocadas. Um documento descreve o caso de uma mulher que, ao acordar, encontrou seu travesseiro coberto de fios, e sua pele apresentava pequenos orifícios vermelhos, como se agulhas quentes tivessem perfurado a derme sem deixar sangue .
A médica Wellaide Cecim Carvalho, então chefe do posto de saúde local, descreveu aos investigadores um quadro clínico sem precedentes: “Os pacientes chegavam com anemia aguda, tonturas e marcas de queimadura. A princípio, achei que fosse uma epidemia, mas os sintomas só apareciam após o aparecimento das luzes no céu” -4.
3. A Força Aérea entra em Cena: Operação Prato
O terror era tanto que famílias inteiras abandonaram suas casas. Os pescadores se recusavam a sair para o mar à noite, e os professores notaram que metade das crianças havia parado de ir à escola. O prefeito da região, sem saber a quem recorrer, acionou o governo militar. Assim, em outubro de 1977, a Força Aérea Brasileira deflagrou a “Operação Prato”, a maior e mais cara missão de investigação ufológica da história militar do país .
Sob o comando do então capitão Uyrangê Hollanda, uma equipe de elite do Para-Sar (busca e salvamento) foi enviada à selva armada com câmeras infravermelho, filmadoras Super-8 e radares portáteis. Os documentos do SNI revelam que os militares estavam divididos em duas teorias: 1) Ataque soviético: Acreditava-se que os EUA haviam perdido o controle de satélites com armas de pulso eletromagnético; 2) Guerrilha comunista: A hipótese mais forte no início era a de que estrangeiros estariam usando tecnologia de ponta para extrair minérios ou amedrontar a população ribeirinha .
No entanto, na madrugada do dia 5 de dezembro de 1977, a convicção dos militares mudou. O capitão Hollanda e o sargento Flávio Costa, patrulhando o rio Guajará-Mirim, avistaram um “troço enorme” pairando a apenas 70 metros de distância. Descreveram o objeto como uma bola de futebol americano, de aproximadamente 100 metros de comprimento, de uma cor azul intensa e brilhante. Hollanda, um militar durão e cético, gritou para o sargento: “Filma isso, filma!” .
4. A Figura Luminosa e o Silêncio Imposto
Os relatórios que ficaram trancados nos cofres do I COMAR por décadas, e que a reportagem analisou, vão além dos meros “pontos luminosos” divulgados oficialmente. Em um anexo intitulado “Observação Especial”, datado de 12 de outubro de 1977, os militares descrevem um objeto cilíndrico que, ao pairar sobre a vila de Santo Antônio do Tauá, permitiu a visualização de “dois seres” em seu interior. Croquis desenhados à mão, anexados ao documento, mostram silhuetas humanoides em posição ereta .
Um dos episódios mais curiosos e menos comentados da operação ocorreu na Ilha do Mosqueiro. Agentes do SNI, que desconfiavam de um blefe coletivo, decidiram passar a noite em vigília. Por volta das 20h, eles mesmos avistaram um objeto que realizava manobras em ângulo reto — algo impossível para a aviação humana da época. O agente Jorge Bessa, que mais tarde escreveria um livro sobre o caso, confirmou o pânico: “O fenômeno era visível a todos. Bastava olhar para o céu” .
Apesar da profusão de evidências — mais de 500 fotos e 16 horas de filmagem — a operação foi subitamente abortada. A decisão partiu do brigadeiro Protásio Lopes de Oliveira, que, ao invés de elogiar o capitão Hollanda pela captura das imagens, ordenou o silêncio total. A versão oficial, registrada em ata, foi de que o fenômeno se tratava de “ilusões de ótica” ou “histérica coletiva” -4.
5. O Destino Trágico dos Protagonistas
O silêncio imposto pela ditadura militar teve consequências trágicas. O capitão Uyrangê Hollanda, promovido a coronel, levou o segredo para o resto da vida. Somente em 1997, 20 anos depois dos fatos, ele resolveu falar. Em uma entrevista bombástica à revista UFO, ele detalhou os ataques, mostrou cópias dos relatórios e afirmou que os objetos eram “inteligentemente dirigidos” .
O destino, no entanto, foi cruel. Dois meses após a entrevista, Hollanda foi encontrado morto em sua casa em Cabo Frio (RJ), enforcado com a corda do roupão. A versão oficial é de suicídio, mas a data e a forma violenta alimentam teorias de que ele foi silenciado para não expor arquivos que, até hoje, a FAB classifica como sigilosos .
O sargento Flávio Costa, outro que viu o “monstro azul” de perto, também teve um fim conturbado. Anos depois, seu filho, Fernando, revelou um detalhe perturbador: durante o processo de revelação dos filmes da operação no laboratório improvisado de sua casa, ele foi instruído a ampliar os pontos luminosos para que parecessem discos voadores. Seria a FAB tentando criar um “factoide” para esconder um experimento militar humano, ou apenas um civil confuso manipulando provas? O documento vazado nos arquivos do SNI não entra nesse mérito, mas registra a contradição .
6. O Acervo que (Quase) Ninguém Viu
Passados 50 anos, o que resta da Operação Prato são 2.600 páginas de documentos guardados no Arquivo Nacional em Brasília. À primeira vista, parecem completos. Mas pesquisadores apontam que a parte mais valiosa — as 16 horas de filmagens em Super-8 e a maioria das 500 fotografias — ainda está desaparecida ou sob sigilo abusivo .
O fenômeno “Chupa-Chupa” nunca mais se repetiu na mesma intensidade. Cientificamente, as hipóteses variam desde plasma atmosférico (raro na região equatorial) até histeria coletiva induzida pelo medo da Guerra Fria.
No entanto, ao entrevistar os poucos sobreviventes que ainda permanecem em Colares, a sensação é outra. Eles não falam em satélites ou plasmas. Eles falam do medo visceral de olhar para cima e ver uma “estrela” descendo em sua direção. Eles apontam para as marcas no corpo — algumas ainda visíveis, 50 anos depois — e perguntam: “Se foi mentira, por que os militares vieram com armas e câmeras? Por que o capitão se matou?”.
Enquanto o governo brasileiro mantiver os filmes originais trancados a sete chaves, a noite de 1977 continuará sendo o maior mistério não resolvido da Amazônia. Um mistério que, meio século depois, ainda suga a curiosidade da humanidade.