O SILÊNCIO DAS ESTEPES: O CASO UFOLÓGICO DO CAZAQUISTÃO QUE O MUNDO IGNOROU
O ARQUIVO Nº 17-KZ
Em maio de 2015, um funcionário do Arquivo Nacional do Cazaquistão, em Astana, autorizou a consulta de uma caixa metálica enferrujada que permanecia selada desde 19 de setembro de 2005. Dentro dela, 47 páginas amareladas – relatórios manuscritos, diagramas técnicos, transcrições de rádio e uma fotografia polaroid borrada. No canto superior direito, o carimbo vermelho: “Para uso interno. Comissão Interministerial de Fenômenos Aéreos Anômalos. Prazo de sigilo: 20 anos”.
O prazo venceria apenas em 2025, mas a caixa foi “extraviada” por três dias. Tempo suficiente para que este jornalista registrasse cada palavra.
O que se segue é a reconstrução mais completa do que ficou conhecido como O Incidente de Betpak-Dala – ou, entre os poucos que ouviram falar, “A Noite dos Três Radares”.
O CONTEXTO – UM PAÍS ENTRE IMPÉRIOS
O ano era 2005. O Cazaquistão celebrava 14 anos de independência da União Soviética. Nursultan Nazarbayev, o único presidente que o país conhecera, equilibrava-se entre Moscou e Washington. O petróleo do Cáspio fluía para os oleodutos ocidentais, mas os sistemas de defesa aérea – herança soviética – ainda estavam sintonizados na frequência do Kremlin.
Era também um período de abertura gradual de arquivos militares. A Guerra Fria havia terminado, e os segredos de espionagem cediam espaço a um tipo diferente de mistério: relatos de pilotos que viam luzes impossíveis, de operadores de radar que rastreavam objetos que violavam as leis da física.
Entre 2003 e 2006, o Ministério da Defesa do Cazaquistão registrou, extraoficialmente, 23 ocorrências de fenômenos aéreos não identificados. A maioria foi descartada como mísseis russos em teste, balões meteorológicos ou reflexos atmosféricos. Três casos, porém, foram classificados como “anômalos sem explicação técnica”.
O segundo deles, ocorrido entre os dias 12 e 13 de agosto de 2005, é o objeto desta reportagem.
A TESTEMUNHA – O CONTROLADOR QUE VIU O IMPOSSÍVEL
Nome: Ruslan T. Sadykov
Idade à época: 34 anos
Função: Controlador de tráfego aéreo sênior, Centro de Controle de Área de Karaganda (ACC Sary-Arka)
Sadykov trabalhava no turno da noite há oito anos. O centro de controle de Karaganda monitora uma das rotas aéreas mais movimentadas da Ásia Central – o corredor que liga a Europa ao Sudeste Asiático. Naquela noite, o céu estava limpo. Visibilidade: 20 quilômetros. Vento: sudeste, 12 nós.
Às 22h47min, horário local (16h47min UTC), o radar primário detectou um contato a 120 quilômetros a nordeste da estação, altitude de 28 mil pés (aproximadamente 8.500 metros). Sadykov descreveu o objeto como “uma assinatura forte, mas instável”. Ele inicialmente presumiu tratar-se de um voo comercial não identificado – um risco grave de colisão.
– Eu acionei o canal de emergência. Pedi que qualquer aeronave naquela posição se identificasse. Silêncio. Chamei novamente. Silêncio.
O objeto não respondia aos transponders civis nem aos militares. Sadykov fez o que o protocolo exigia: notificou a Força Aérea do Cazaquistão, que na época operava uma mistura de caças Sukhoi Su-27 e MiG-31 herdados da URSS.
Mas antes que qualquer interceptação fosse ordenada, o radar secundário – que depende de respostas eletrônicas das aeronaves – simplesmente apagou o contato. O radar primário, porém, continuou mostrando o objeto. Isso só acontece quando algo está fisicamente ali, mas se recusa a se comunicar.
Às 22h53min, o objeto mudou de comportamento. Parou no ar.
– Ele reduziu a velocidade de aproximadamente 800 km/h para zero em menos de dois segundos – relatou Sadykov em seu depoimento manuscrito, anexo ao Arquivo 17-KZ. – Nenhuma aeronave que eu conheça pode fazer isso. Nem um helicóptero. Nem um drone. Nem um míssil.
O objeto permaneceu estacionário por 47 segundos. Depois, acelerou na direção sul-sudoeste e desapareceu do radar a 380 quilômetros de distância. Tempo total de travessia: 11 segundos. Velocidade média calculada: 124.000 km/h.
Sadykov nunca mais falou publicamente sobre o caso. Em 2010, foi transferido para um posto administrativo em Aktobe. Quando procurado por este jornalista, recusou-se a gravar entrevista, mas escreveu em um guardanapo: “O que vi naquela noite não era nosso. Peça ao general Voronin.”
O GENERAL – A VERDADE QUE NINGUÉM QUERIA
Nome: Yuri V. Voronin (aposentado)
Patente à época: Major-general da Força Aérea do Cazaquistão, comandante interino da Defesa Aérea da Região Central
O general Voronin é uma figura controversa nos círculos militares cazaques. Em 2005, ele chefiava o setor de defesa aérea que cobria as regiões de Karaganda, Zhezkazgan e o deserto de Betpak-Dala – uma área de 400 mil quilômetros quadrados.
Recebemos acesso a uma cópia do relatório assinado por Voronin em 14 de agosto de 2005, dois dias após o incidente. O documento, endereçado ao Chefe do Estado-Maior General, diz textualmente:
*”No período entre 22h47 e 23h02 do dia 12 de agosto, três estações de radar independentes – Karaganda (P-37), Balkhash (P-18) e Sary-Shagan (5N62) – detectaram um objeto aéreo não identificado. As leituras foram consistentes em frequência, distância e trajetória. Tentativas de identificação amigo-inimigo (sistema Parol) falharam. O objeto não corresponde a nenhum perfil de aeronave, míssil balístico ou satélite catalogado.”*
Na seção de “Conclusões Preliminares”, Voronin escreveu à mão:
“Descartada a hipótese de invasão hostil. Descartada a hipótese de falha técnica generalizada de três radares simultaneamente. A origem e a natureza do objeto permanecem indeterminadas. Recomendo o arquivamento deste relatório em caráter sigiloso até que novas evidências surjam.”
Em entrevista concedida a este jornalista por meio de intermediários (Voronin tem 78 anos e vive em uma dacha nos arredores de Almaty), o general foi sucinto:
– Eu assinei aquele relatório contra minha vontade. O Estado-Maior queria que eu chamasse de “balão meteorológico”. Mas eu disse: senhores, desde quando balão meteorológico acelera a 124 mil quilômetros por hora? Desde quando balão meteorológico é rastreado por três radares diferentes, cada um com tecnologia de décadas diferentes, e todos mostram a mesma coisa?
Voronin revelou um detalhe que não consta no relatório oficial:
– Na manhã seguinte, um esquadrão de busca foi enviado à estepe, na região onde o objeto desapareceu. Eles encontraram uma depressão no solo – um círculo perfeito de 18 metros de diâmetro. A grama estava queimada, mas não havia cinzas. A vegetação ao redor estava intacta. Parecia que algo muito quente havia tocado o chão por uma fração de segundo. Um técnico de radiação fez a medição. Zero. Nenhuma radiação. Não era nosso. Não era russo. Não era chinês.
O general fez uma pausa.
– O governo cazaque não queria essa história. Em 2005, estávamos assinando contratos de bilhões de dólares com empresas ocidentais de petróleo. A última coisa que Nazarbayev precisava era de uma investigação internacional sobre OVNIs no espaço aéreo do Cazaquistão. O caso foi enterrado. E eu fui enterrado junto com ele – nunca mais fui promovido.
AS TESTEMUNHAS CIVIS – OS PASTORES DE BETPAK-DALA
O Arquivo 17-KZ contém nove depoimentos de civis. O mais detalhado é de Tolegen N. Zhumabayev, então com 52 anos, pastor da região de Ulytau.
Zhumabayev dormia em sua yurt, a aproximadamente 45 quilômetros do ponto de detecção do radar, quando foi acordado por sua cadela de pastoreio.
– Ela nunca late à noite. Os lobos a ensinaram a ficar quieta. Mas naquela noite, ela uivava como um filhote perdido.
O pastor saiu da yurt. O céu estava estrelado. E então ele viu.
– Uma luz. Não como uma estrela. Nem como um avião. Era como se alguém tivesse cortado o céu e colocado um pedaço de lua ali. Ela flutuava sem fazer barulho. Eu sou muçulmano, não tenho medo de fantasmas, mas naquela hora me ajoelhei. Achei que era o anjo Azrael.
O objeto – que Zhumabayev descreveu como “dois discos de luz unidos por um centro escuro” – pairou sobre a estepe por “talvez um minuto, talvez uma hora”. Depois, subiu verticalmente “mais rápido que uma bala de fuzil” e desapareceu.
– Quando contei isso ao chefe da aldeia, ele riu. Disse que eu tinha bebido kumis demais. Mas eu não bebo. E minha cadela também não.
Zhumabayev faleceu em 2019. Sua cadela, no entanto, teve um comportamento curioso nas semanas seguintes ao avistamento: nunca mais voltou a uivar à noite.
O arquivo também contém o depoimento de Marina K. Volkova, engenheira civil do antigo complexo de testes de mísseis de Sary-Shagan. Volkova estava em serviço noturno na estação de monitoramento sísmico quando os instrumentos registraram uma “anomalia de pressão atmosférica” às 22h49min – dois minutos após o primeiro contato do radar.
*”A onda de choque foi registrada como um pulso único, de baixa amplitude, mas de duração extremamente curta – 0,03 segundos. Não corresponde a nenhum terremoto natural nem a explosão controlada. Parecia que algo havia rompido a atmosfera e voltado a selá-la instantaneamente.”*
Volkova tentou publicar suas observações em um periódico científico de Almaty em 2006. O artigo foi recusado. “O conselho editorial disse que o tema era ‘inapropriado para o momento político'”, escreveu ela em uma carta anexada ao arquivo.
A FOTOGRAFIA – A IMAGEM QUE NÃO DEVERIA EXISTIR
Entre os documentos da caixa metálica, havia uma única fotografia. Polaroid. Borrada. Mas possível de ser analisada.
A imagem mostra o que parece ser um objeto escuro e alongado contra um céu noturno. Não é possível distinguir detalhes – a foto foi tirada por uma testemunha não identificada com uma câmera de baixa qualidade. Mas uma legenda manuscrita no verso diz:
“Zhezkazgan, 12.08.2005, 23:15. Distância aproximada: 3 km. O objeto emitia uma luz verde na parte inferior.”
Especialistas em análise forense de imagens consultados por esta reportagem (e que pediram anonimato) afirmaram que a foto “não apresenta evidências de montagem ou dupla exposição”. Ou seja: é genuína. Apenas não mostra o suficiente para uma conclusão definitiva.
Ainda assim, o simples fato de a foto ter sido mantida em um arquivo militar classificado por 20 anos é, por si só, uma evidência de que as autoridades levaram o caso a sério. Se fosse uma farsa ou um engano, a Polaroid teria sido descartada. Em vez disso, foi selada, carimbada e arquivada.
A REAÇÃO OFICIAL – O SILÊNCIO QUE FALA
O que o governo cazaque disse publicamente na época? Quase nada.
No dia 15 de agosto de 2005, o jornal “Kazakhstanskaya Pravda” publicou uma nota de três parágrafos na página 12:
“O Ministério da Defesa informa que não há registro de eventos anômalos no espaço aéreo do Cazaquistão nos últimos dias. Relatos de cidadãos sobre luzes no céu estão sendo investigados, mas provavelmente tratam-se de exercícios militares de rotina.”
Exercícios militares de rotina que ninguém – nem mesmo os militares de baixa patente – sabia que estavam acontecendo.
O canal estatal Khabar TV não mencionou o caso. A agência de notícias Kazinform silenciou. O presidente Nazarbayev, em seu discurso semanal, falou sobre a produção de grãos e a nova rodovia Astana-Karaganda. Não uma palavra sobre o céu.
O silêncio, para os investigadores, é uma forma de confirmação. Se o incidente fosse um erro de radar ou um balão meteorológico, o governo teria dito isso. “Era só um balão” encerra polêmicas. O silêncio, ao contrário, alimenta especulações – mas também protege segredos que não podem ser admitidos.
A hipótese mais razoável, sustentada por analistas de inteligência ouvidos por esta reportagem, é que o governo cazaque não sabia o que havia acontecido e, portanto, preferiu não dizer nada. Em um país jovem, com fronteiras sensíveis e vizinhos poderosos (Rússia, China), admitir que algo desconhecido cruzou seu espaço aéreo seria um sinal de fragilidade.
Melhor enterrar o caso. E foi o que fizeram.
A CONEXÃO INTERNACIONAL – O QUE OS ARQUIVOS ESTRANGEIROS DIZEM
O Incidente de Betpak-Dala não aconteceu no vácuo. Em agosto de 2005, outros países também registraram fenômenos inexplicáveis.
No dia 9 de agosto, três dias antes do caso cazaque, o radar do NORAD (Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte) detectou um objeto não identificado sobre o Alasca. A trajetória: noroeste-sudeste, velocidade estimada de 80 mil km/h. O objeto desapareceu sobre o Mar de Bering.
No dia 14 de agosto, dois dias após o incidente, pilotos da Força Aérea Turca relataram luzes “manobrando de forma inteligente” sobre o Mar Mediterrâneo.
Há alguma conexão? Especulação, apenas. Mas os arquivos militares da OTAN desclassificados em 2018 mencionam “um aumento significativo de detecções de fenômenos aéreos não identificados na região da Ásia Central entre julho e setembro de 2005”.
O Cazaquistão, geograficamente, está no centro dessa região.
O que estava acontecendo? Ninguém sabe. Mas os registros da época são claros: algo estava no céu, e não era nosso.
O QUE SOBROU – A HERANÇA DE UM MISTÉRIO
Vinte anos depois, o Arquivo 17-KZ continua incompleto. Faltam páginas. A fotografia original foi digitalizada e devolvida à caixa. Os depoimentos dos controladores de radar – que deveriam ser três – resumem-se a um.
O general Voronin, hoje aposentado, ainda espera uma retratação.
– Nunca pedi fama. Pedi apenas que registrassem a verdade. O que vimos naquela noite não foi um erro. Não foi um fenômeno natural. Foi algo inteligente. Algo que nos observou tanto quanto nós o observamos.
Tolegen Zhumabayev, o pastor, morreu sem saber o que viu. Sua cadela também.
Ruslan Sadykov, o controlador de voo, foi transferido para Aktobe e nunca mais operou um radar.
E o objeto? Ninguém sabe. O céu do Cazaquistão, naquela noite de agosto de 2005, guardou um segredo que talvez nunca seja completamente revelado.
O que resta são 47 páginas amareladas, uma polaroid borrada e o depoimento de homens e mulheres que juraram dizer a verdade – e, ao que tudo indica, disseram.
EPÍLOGO: OS ARQUIVOS ABERTOS
Em 2025, o Arquivo 17-KZ será oficialmente desclassificado. Qualquer cidadão poderá consultar as 47 páginas originais – exceto aquelas que, misteriosamente, já não estarão mais lá.
Até lá, esta reportagem permanece como um registro do que foi possível resgatar. Não como verdade definitiva, mas como evidência de que, às vezes, o que o governo não diz é mais revelador do que o que diz.
O céu do Cazaquistão, 20 anos atrás, parou por alguns minutos. Milhares de pessoas viram. Três radares confirmaram. E, depois, o silêncio.
Este jornalista, ao fechar a caixa metálica pela última vez, lembrou-se das palavras do general Voronin:
– “O universo é grande demais para que sejamos os únicos. A pergunta não é se eles existem. A pergunta é por que eles nos observam.”
Na estepe de Betpak-Dala, o vento continua soprando. Os pastores ainda olham para o céu. E a cadela de Tolegen – agora também falecida – ainda late, talvez, para algo que os humanos não podem ver.
O Arquivo 17-KZ espera. O mistério, também.